quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Coline e o moço dos saquinhos de tempo

Estavam lá sentados, pequenos e mais uns ali, conversando naquele lugar de sempre no fim do expediente. Ele ia porque gostava do café, ela porque gostava das cores, do dégradé marrom da cafeteria. Ambos gostavam do cheiro -cheiro de marrom- de café e cookies.


Ele, Linus Valdo, aponta o dedo para a livraria em frente, e interrompe o silêncio em sua mesa - Olhe só, olhe todos estes malditos livros... Odeio todos! – e volta a beber seu café com feição blasê.

-Sério?! -Pergunta ela, Coline, sem se impressionar muito com o comentário do amigo.

-Não é irritante a maneira insuportavelmente atraente de como eles os expõem nas prateleiras? E as capas! Uma mais chamativa que a outra! – insiste Linus Valdo.

- É um lugar que vende livros Linus, precisam chamar atenção. E na verdade, eu acho até bem bonito.

-Eu também acho! E tenho vontade de comprar todos! Na verdade já compro, sou um comprador de livros compulsivo!

- Você disse que os odeia...

- Ta, não odeio, só queria ser dramático. A verdade é que odeio querer ler todos e não ter tempo de ler sequer um!

- Entendo...

- O trabalho, o trânsito, o sono, o banho... Quanto tempo eu perco mastigando!

-Um cookie, por favor- Pede Coline do garçom – Linus, você continua dramático, não vá parar de comer, tampouco de tomar banho, por favor querido.

- Os livros deveriam vim acompanhados de saquinhos de tempo!

- Tempo embalado? Algo como horas em saquinhos?

- Isso! – respondeu ele com os olhos brilhando, e uma feição alegre quase doente.

- Eu compraria saquinhos de tempo. Moço, a conta, por favor.

Ele, Linus Valdo, no transitado percurso para casa, pensou em como seria maravilhoso ter tempinhos enlatados, na sua estante cheia de livros. È claro que não conseguiria encontrar segundos ou horas em recipientes. Teria que encontrar sua própria solução.

No dia seguinte, no lugar marrom, ele estava com olheiras e uma aparência cansada.

- Olá Coline...

-Hei Linus, você está horrível!

-Por fora, eu sei, mas por dentro sinto-me realizado.

-O que andou fazendo de ontem pra hoje?

-Fabriquei uma insônia e esqueci de comer. Meus sacos de tempo.

-Você não pretende fazer isso hoje, pretende?

- E depois cara amiga, e depois... Um café, por favor.